Escassez de talentos: um desafio estratégico para as empresas

Por Kecia Castro
Gerente de Recursos Humanos da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e Conselheira Estratégica da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais (ABRH-MG)

Nos últimos anos, a escassez de talentos tornou-se um dos maiores desafios estratégicos enfrentados pelas empresas. Com a competitividade no mercado de trabalho em alta, é crescente a dificuldade de contratar e reter profissionais qualificados. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE) aponta que seis em cada dez empresas enfrentam esses obstáculos, e 77,2% delas consideram a contratação como o principal desafio na gestão de pessoas.
Neste cenário, observamos que fatores como a exigência por salários mais altos, a preferência por trabalho remoto e a busca por uma maior coerência entre os valores pessoais dos profissionais e a cultura organizacional têm elevado ainda mais a dificuldade de encontrar o perfil ideal para diversas funções. Como resposta, muitas organizações têm investido não apenas em pacotes de benefícios mais atrativos, mas também em capacitação interna, especialmente em setores como a indústria, para suprir essa carência.
As consequências dessa escassez são amplamente visíveis: atraso nas entregas, dificuldades na conquista de novos contratos e até mesmo a repasse dos custos para os consumidores, contribuindo para a inflação de serviços. É um ciclo que impacta diretamente a produtividade das empresas e sua competitividade.
Além de fatores externos, como a globalização e o trabalho remoto, que ampliaram o acesso a talentos em qualquer parte do mundo, a transformação digital tem ampliado a demanda por profissionais com competências em áreas específicas como tecnologia e análise de dados. A combinação dessas habilidades técnicas com competências interpessoais, como inteligência emocional e pensamento crítico, se tornou um diferencial competitivo.
E, diante de tanta concorrência, a construção de uma marca empregadora forte se torna essencial. Empresas que demonstram com clareza seus valores e oferecem oportunidades reais de crescimento, além de promover um ambiente inclusivo, conseguem atrair e, principalmente, reter os profissionais mais qualificados. Investir em uma cultura organizacional que se alinha aos valores de seus colaboradores é imprescindível. Isso também inclui políticas de diversidade e inclusão, que não só ampliam o acesso a uma gama maior de talentos, mas promovem um ambiente de inovação e colaboração.
O que vemos, por fim, é que a escassez de talentos não é apenas um problema de mercado. É uma oportunidade para as empresas inovarem, adaptarem suas práticas de recrutamento e impulsionarem uma cultura de aprendizado contínuo. A construção de um ambiente de trabalho saudável, com programas de capacitação e desenvolvimento, cria não só melhores resultados a curto prazo, mas também uma base sólida para o futuro da organização.
Enfrentar a escassez de talentos é, sem dúvida, um desafio estratégico. Mas com uma visão clara e ações bem estruturadas, as empresas podem não apenas superá-lo, mas também transformar esse cenário em um diferencial competitivo duradouro.

Nada sobre Nós sem Nós: a construção da sociedade inclusiva

A construção de uma sociedade estruturalmente inclusiva exige a eliminação ou a equalização de barreiras que historicamente marginalizam diferentes grupos populacionais. Esse processo não se limita às pessoas com deficiência, mas abrange todos os segmentos sociais que, por razões culturais, econômicas ou estruturais, encontram-se em situação de subjugação nas relações de poder.
São esses grupos minorizados que enfrentam barreiras à sua plena inclusão social, desde obstáculos físicos e institucionais até barreiras mais sutis e insidiosas, como as atitudinais. Estas, em particular, manifestam-se em preconceitos, discriminações e no capacitismo, que perpetuam a exclusão e dificultam a participação igualitária desses indivíduos na sociedade. Nesse sentido, superar tais barreiras é uma condição indispensável para a construção de um ambiente verdadeiramente justo e democrático.
As barreiras estruturais, sejam elas físicas, comunicacionais, institucionais ou culturais, precisam ser enfrentadas de forma abrangente. Para isso, as políticas públicas desempenham um papel essencial, uma vez que são os instrumentos por meio dos quais a sociedade pode promover transformações concretas em suas bases estruturais. No entanto, essas políticas são, em grande medida, moldadas pelas práticas e demandas dos indivíduos e coletividades em seu cotidiano.
É nesse ponto que o associativismo se torna uma ferramenta fundamental. A união de indivíduos que compartilham experiências de exclusão ou que são solidários à luta por igualdade pode potencializar a influência sobre as decisões políticas. Associações e movimentos sociais são espaços de articulação e resistência, nos quais vozes plurais se fortalecem para exigir mudanças efetivas. Essa dinâmica de participação não apenas fortalece a democracia, mas também assegura que as políticas públicas reflitam as reais necessidades e demandas da população.
Entre todas as barreiras enfrentadas, a atitudinal é a mais difícil de se superar, pois está enraizada em preconceitos culturais e sociais profundos. Ela se manifesta em atitudes discriminatórias, estigmas e na falta de empatia para com aqueles que são percebidos como “diferentes”. A superação dessa barreira requer um esforço coletivo e educativo que promova a conscientização e o respeito à diversidade. Educação Inclusiva, campanhas de sensibilização e o incentivo à convivência são caminhos eficazes para desconstruir preconceitos. Além disso, a valorização das contribuições únicas de cada indivíduo para a sociedade deve ser central no discurso inclusivo, garantindo que a diversidade seja percebida como uma riqueza e não como um obstáculo.
É por isso que o slogan “Nada sobre Nós sem Nós” sintetiza a essência de uma sociedade inclusiva. Ele reforça a necessidade de que as pessoas diretamente afetadas por barreiras sociais estejam no centro das discussões e das tomadas de decisão que impactam suas vidas. No entanto, esse princípio não deve ser interpretado como uma exclusão de outros grupos solidários à causa. Pelo contrário, a construção de uma sociedade inclusiva é uma responsabilidade coletiva, que demanda a participação de todos os setores sociais.
Quando indivíduos de diferentes grupos minorizados unem-se em prol de objetivos comuns, criam-se condições para uma transformação estrutural mais ampla e significativa. A participação plural confere legitimidade às ações inclusivas e promove a solidariedade entre diferentes segmentos da população.
A construção de uma sociedade estruturalmente inclusiva é um desafio que exige a superação de barreiras de diferentes naturezas, com especial atenção àquelas atitudinais. Essa transformação só será possível por meio de políticas públicas eficazes, moldadas por movimentos sociais fortes e participativos, bem como pela adesão de indivíduos de todos os segmentos sociais.
Ao adotar o princípio de “Nada sobre Nós sem Nós” como guia, a sociedade pode assegurar que as vozes de todos sejam ouvidas e respeitadas. Somente assim é possível construir um futuro em que a igualdade, a justiça e a inclusão sejam os alicerces de uma convivência verdadeiramente humana e solidária.

Com a contribuição de André Naves, defensor público federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, mestre em Economia Política pela PUC/SP. Cientista político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador cultural, escritor e professor (Instagram: @andrenaves.def).